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«A maternidade não é um percurso fácil, mas é extremamente compensador.»

 

Antes de mais devo alertar que o testemunho que se segue foi escrito por uma adepta incondicional da amamentação, portanto tendenciosa!

A maternidade não é um percurso fácil, mas é extremamente compensador.

Felizmente eu tive a sorte de planear tudo para a chegada do meu filho e de, contrariamente ao que sucede grande parte das vezes, tudo ter corrido conforme o esperado.

Por entender que a maternidade é a grande responsabilidade da nossa vida e que para a assumirmos plenamente devemos ter a maior disponibilidade possível, quer material, quer emocional, preparei a minha vida profissional e pessoal de forma a que assim fosse, quando entendi que tinha reunido as condições, decidi iniciar a preparação para engravidar, fui às consultas, fiz o tempo de repouso da pílula aconselhado, tudo isso, para poder conceber naquele período que tinha estabelecido como ideal…

De facto tive a sorte, de engravidar de imediato, sorte essa que se perpetuou pela gravidez, pois não senti nenhum dos incómodos típicos da gravidez, nem sequer engordei, desenvolvi a barriga apenas ao 5º mês e a partir daí transformou-se numa grande “bola” e foi tudo.

O parto teve início com o rompimento da bolsa de liquido amniótico, pelo que teve de ser provocado, mas correu de forma natural e após este suave percurso, eis que chega o meu bebé, um rapazinho lindo (para a família são sempre, não é?), de olhos negros e como desejado foi colocado de imediato à mama.

Passou a primeira noite, como as que se seguiram até ao dia de hoje (mas nessa altura estava longe de imaginar tal), ou seja, ao peito.

Confesso que no início é complicado estar acordada das 4 às 6 da manhã, com um bebé a mamar, não dormir, mas com o tempo (que descobri ser, juntamente com a natureza, o grande aliado da maternidade), o bebé apesar de não dormir a noite inteira vai acordando apenas para mamar e nós adaptamo-nos e já nem custa nada, até porque até aos três meses não dormia, “passava pelas brasas” como se costuma dizer, a partir daí começa-se a conseguir dormir nos intervalos e acordamos logo que o bebé começa a dar sinal. Mas miraculosamente, mesmo sem dormir, conseguimos estar perfeitamente durante o dia, como se tivéssemos dormido! É verdade que facilita o facto de para mim constituir um prazer, tê-lo ali só meu em fusão comigo, que é outra coisa que não é evidente para as outras pessoas, que teimam em dizer para tirarmos o leite e darmos biberão, mas o certo é que mesmo durante o dia, pode estar com outras pessoas, mas há um momento em que ele é só nosso novamente!

Não obstante a equipa do curso de preparação para o parto, que foi inexcedível a todos os níveis, nos ter ensinado e batalhado para os benefícios da amamentação e a forma como a mesma se deverá fazer, eu ter lido bastante sobre o assunto, mesmo assim pensava que seria algo instintivo que tanto mãe como filhos saberiam automaticamente como fazer, o certo é que o meu bebé não sabia  mamar.

E como é que descobri que afinal o instinto não é suficiente para o nosso bebé saber comer? Porque simplesmente os meus bicos ficaram em carne viva passados dois dias após o nascimento do meu bebé. Apenas eu e o meu marido sabíamos o estado do meu peito, para mim “fazia parte”, pois é “normal” fazer gretas, no meu caso era apenas mais grave e então lá me deixei andar à espera que o tempo resolvesse, o que não sucedia. Ao fim de três semanas, partilhei esta realidade com os meus familiares mais próximos, que diziam que de acordo com a sua experiência, era tudo menos normal, que devia era deixar de dar de mamar por uns tempos e dar o biberão, que devia usar os bicos de silicone, que devia aplicar este produto, aquele, etc…como tudo no que concerne à maternidade há sempre muitas opiniões e diferentes. E eu sem acatar nenhuma dessas sugestões, pois felizmente eu tinha-me documentado durante a gravidez e as aulas de preparação para o parto sido muito esclarecedoras quanto a esta matéria e apenas deixava o peito mais exposto ao ar (nunca gostei do “purelan”, único produto que efectivamente deve ser aplicado).

Por fim, como resido num meio pequeno, a minha Mãe ao partilhar com as suas amigas a minha situação, lá soube que no Centro de Saúde da nossa localidade, existia uma equipa que dava apoio à amamentação.

Confesso que quando a minha Mãe me falou no assunto, fiquei algo céptica, pois não achava que o problema residia na amamentação, mas sim que o meu peito fosse “frágil” para as solicitações constantes do meu bebé.

Após alguma insistência lá fui ter com a equipa de apoio à amamentação e não é que ao pesarmos o meu bebé com três semanas ele tinha perdido 100g? Imagine-se a nossa aflição (pois o meu marido esteve sempre presente em todos os momentos). E não bastando o susto, de imediato me dizem que o meu bebé não estava a comer correctamente, aí fiquei estupefacta, o meu bebé tão gordinho, que até essa data aumentava de peso normalmente e que mamava tão correctamente, de três em três horas!?!

Mais uma falha, para quem era “doctus cum libro”! Afinal o meu bebé andava sempre à procura de algo para sugar, não por sentir falta da chupeta (como as pessoas mais experientes me diziam, o que constituía mais uma batalha, “onde se viu um bebé sem chupeta”, o certo é que até hoje não conheceu tal objecto e não se afigura que sinta a falta), mas antes porque as necessidades alimentares dele não eram satisfeitas, eu que me esforçava tanto e mesmo assim tal sucedeu!

Afinal os bebés de peito devem alimentar-se quando querem, pois só eles conhecem as suas necessidades reais.

A tudo isto acrescia que o meu bebé não sabia pegar! O mais incrível é que só descobri isto ao fim de três semanas!

Nesse dia fui para casa e segui as instruções médicas à risca, estive três dias e noite ininterruptos no sofá da minha sala a dar de mamar ao meu bebé para o compensar. Paulatinamente, no início lá começou a ganhar peso, a partir do momento que normalizou, passou a aumentar numa semana o que devia aumentar num mês.

Estou certa que se não tivesse tido a sorte de encontrar a equipa de apoio à amamentação, muito provavelmente, não obstante ser detentora da informação suficiente, teria cedido às sugestões dos pediatras, como constatei ser normal com as minhas amigas, de automaticamente introduzir o suplemento para o bebé ganhar peso (forma mais fácil e rápida).

Daí em diante não deixei de dar de mamar ao meu bebé quando ele queria, bastava mostrar o mínimo sinal, claro que tal para as restantes pessoas era muito estranho e constituía uma forma de “escravidão”! Teimavam em questionar porque não dava o biberão com o suplemento? Porque não estabelecia um horário, para ter mais liberdade nos intervalos? E o que me deixava mais atónita era isto vir de pessoas que foram ou estavam para ser mães, de todas as outras compreendia, pois esse é um dos múltiplos conhecimentos que apenas se adquirem a partir do momento em que passamos a integrar o clube das mães!

Ao decidirmos ser mães passamos a estar inteiramente disponíveis para o nosso filho, a querer o melhor para aquele ser, porque o amamos e também porque somos responsáveis por ele! Há tanta coisa que escapa ao nosso controlo e que gostaríamos mas não podemos propiciar! Tantas mães que gostariam mas que não conseguem fazê-lo, pelos mais diversos motivos. E eu que tinha como dar o melhor ao meu filho naquela fase da vida, que inclusive implicava um estreitamento de laços entre nós não o ia fazer! E em prol do quê? De poder sair mais, de ter mais tempo para mim, para o poder deixar com outras pessoas, de ceder ao facilitismo em detrimento do amor, da relação que queria estabelecer com o meu filho?

Acresce a tudo isto que eu tinha decidido ter o meu filho naquela altura, portanto tinha de ter disponibilidade e entrega total para ele, até por uma questão egoísta de querer aproveitar ao máximo, pois sempre tive a noção de que o “tempo voa”, a velocidade de crescimento e evolução deles são avassaladores! Quando ele for maior voltarei a ter tempo para outras coisas, quando ele não tirar tanto proveito da minha presença e ele próprio quererá ficar com outras pessoas, mas numa fase em que isso será benéfico para ele e que de certo será penoso para mim!

Conforme podem constatar esta falta de compreensão ainda hoje me perturba e confesso que tenho dificuldade em perceber, apesar de não criticar, as mães que estão ansiosas para voltar para as “suas vidas” e quanto menos os filhos derem trabalho melhor, mas ambas são formas de estar na vida que merecem ser respeitadas.

No meio de tudo acabei por não esclarecer como se resolveu a situação do meu peito, foi-me dito que com o bebé a fazer uma pega correcta sararia por si próprio, o que mais uma vez se confirmou quando o meu bebé fez três meses (os meses e semanas de vida do nosso bebé passam a ser os nossos medidores temporais) o meu peito sarou.

No entanto, a saga continuou, com o surgimento dos primeiros dentes o meu bebé provocou um corte a toda a largura da base de um bico, mas mais uma vez o tempo resolveu o assunto e desta vez foi mesmo em poucos dias. A lição que eu retirei é que é imprescindível perseverança, que a natureza acaba por tudo resolver.

Se me questionarem relativamente às alterações, que se pudesse teria introduzido nesta experiência, diria com a mais profunda sinceridade que apenas uma, teria ido procurar a equipa de apoio à amamentação mais cedo, de resto faria tudo igual e se decidir ter um segundo filho, garanto que dentro dos possíveis voltarei a fazer tudo de forma mais similar possível, com a convicção que terei como grande aliados a perseverança, o tempo, a natureza e a minha convicção do que é melhor para o meu bebé.

Perante tudo isto, concluo que o mais importante, para nós mães, é perseverarmos, agirmos de acordo com a nossa consciência e vontade do que é melhor para o nosso filho, alheando-nos das influências externas, mesmo das pessoas mais próximas e que querem o melhor para nós e para o nosso bebé (que na realidade só nós sabemos o que é) e ter a sorte de encontrar um médico em quem sintamos confiança, que partilhe a nossa concepção do que é a maternidade.

É verdade que para mim é fácil dizer isto pois tenho bastante apoio, uma vez que encontrei a médica, com as características atrás mencionadas e o meu marido sempre me acompanhou nesta jornada, que ainda se encontra nos primórdios…

(T. M. A., jurista, mãe do E.)